Você já refletiu sobre como ficará o Simples Nacional na Reforma Tributária? Este regime tributário, criado em 2006 pela Lei Complementar nº 123, é hoje um grande aliado das micro e pequenas empresas brasileiras.
Ao simplificar a cobrança de tributos federais, estaduais e municipais em um único Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS), o regime reduz burocracia e facilita a vida de milhões de empreendedores que faturam até R$ 4,8 milhões por ano.
Com a aprovação da Reforma Tributária, novos impostos entram em cena: o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Essas mudanças, previstas para serem implementadas entre 2026 e 2033, despertam dúvidas entre contadores e empresários.
O Simples Nacional vai acabar?
A boa notícia é que o Simples Nacional será mantido. A Lei Complementar nº 214/2025 assegura a continuidade do regime e o tratamento diferenciado para os pequenos negócios.
Ou seja, mesmo com a criação do IBS e da CBS, as micro e pequenas empresas ainda poderão recolher tributos via DAS. Isso garante que a essência do Simples — a unificação e simplificação — siga protegida.
Duas opções para o pequeno empresário
Com a nova legislação, os optantes do Simples terão duas opções de recolhimento dos novos tributos:
- Permanecer no Simples Nacional, pagando todos os tributos (inclusive IBS e CBS) em um único DAS.
- Aderir ao regime geral apenas para CBS e IBS, mantendo os demais tributos dentro do Simples.
Essa segunda alternativa permite o aproveitamento de créditos tributários, o que pode representar economia para empresas que compram insumos com frequência de fornecedores do regime normal.
Quando vale a pena optar pelo regime híbrido?
Se uma empresa adquire muitos insumos ou tem uma cadeia de fornecedores fora do Simples, o regime híbrido pode ser vantajoso. Afinal, ela poderá se beneficiar dos créditos de IBS e CBS.
Por outro lado, para empresas com baixa estrutura de custo e pouca possibilidade de crédito, o melhor caminho pode ser continuar com o DAS unificado.
Por isso, a análise deve ser feita caso a caso, sempre com a ajuda de um contador qualificado.
O papel estratégico do contador
Com a chegada do novo modelo tributário, seu trabalho como contador se torna ainda mais estratégico. Cabe a você:
- Avaliar o cenário tributário de cada cliente;
- Simular os impactos de cada regime;
- Orientar sobre a melhor escolha semestralmente.
Vale lembrar que a escolha pelo regime híbrido terá validade de seis meses e só poderá ser revista em abril e setembro de cada ano.
A complexidade vai aumentar?
Sim, especialmente para quem optar pelo regime híbrido. A apuração de créditos, a atualização de sistemas, o destaque correto nas notas fiscais e a análise contínua da melhor opção exigirão mais organização.
Além disso, novas obrigações acessórias devem surgir, como declarações específicas de IBS e CBS. A automação e a integração dos dados fiscais se tornam aliadas fundamentais.
Alguns exemplos:
Imagine um pequeno comércio que compra regularmente de grandes distribuidores. Neste caso, vale a pena considerar o regime híbrido para aproveitar os créditos de IBS e CBS.
Agora pense em um escritório de contabilidade ou um consultório médico. Nesses casos, o custo com insumos é baixo, então o Simples tradicional continuará sendo a melhor escolha.
Esses exemplos demonstram que a decisão não pode ser generalizada. É necessário avaliar cada negócio individualmente.
A transição será gradual
A Reforma prevê um cronograma de transição. Em 2026, teremos uma fase de testes com alíquotas simbólicas (0,1% de IBS e 0,9% de CBS). A implantação plena ocorrerá até 2033.
Esse tempo será essencial para que empresas e contadores se adaptem às mudanças. O ideal é começar a preparação agora, com treinamentos, revisão de processos e simulações.
Impacto da CBS e do IBS na prática
A CBS, de competência federal, e o IBS, gerido por estados e municípios, funcionarão de maneira não cumulativa. Ou seja, haverá incidência apenas sobre o valor agregado em cada etapa da cadeia.
Para empresas do Simples que optarem pelo regime híbrido, isso significa que será possível se creditar desses impostos quando houver compras de fornecedores do regime normal — algo que antes não era permitido no Simples tradicional.
A alíquota da CBS deverá ser unificada nacionalmente, enquanto a do IBS poderá variar conforme a legislação dos entes federativos. A soma dos dois tributos, segundo projeções, poderá girar em torno de 25% na média — mas o impacto real vai depender da cadeia de fornecimento de cada negócio.
Simulações comparativas: quando vale a pena sair do Simples?
Considere uma empresa que fatura R$ 1 milhão ao ano e compra 60% do seu custo de fornecedores fora do Simples. Ao aderir ao regime híbrido, ela pode se beneficiar de R$ 50 a R$ 70 mil em créditos tributários.
Se esses créditos superarem a diferença de alíquota entre o Simples e o regime geral, haverá ganho líquido. Já para empresas que compram insumos exclusivamente de outras optantes do Simples ou que têm poucos custos dedutíveis, o regime tradicional tende a ser mais vantajoso.
A simulação deve considerar também o custo operacional, como a atualização de sistemas, o tempo de análise e a carga de obrigações acessórias — aspectos que pesam especialmente para negócios com menor estrutura administrativa.
Dicas práticas para contadores
- Faça uma matriz de clientes com perfil de compras e estrutura de custo;
- Desenvolva cenários de simulação tributária semestrais;
- Acompanhe a regulamentação estadual e municipal do IBS;
- Utilize ferramentas de automação fiscal para controlar créditos e obrigações acessórias;
- Prepare materiais explicativos para orientar os clientes de forma proativa.
Essas ações posicionam o escritório contábil como consultor estratégico e não apenas operacional — algo essencial na nova realidade tributária.
Proteção ou ameaça: depende da preparação
O Simples Nacional na Reforma Tributária pode ser tanto proteção quanto ameaça. Depende do nível de informação, do suporte contábil e da capacidade de adaptação de cada empresa.
Para quem estiver preparado, a reforma pode significar mais economia e eficiência. Para quem ignorar as mudanças, os riscos de prejuízos e autuações aumentam.
O futuro está nas mãos dos contadores
O Simples Nacional continuará sendo uma alternativa relevante. Mas agora, ele exige mais atenção e planejamento.
O contador é a peça-chave para garantir que o pequeno negócio tome a decisão correta. Com análise estratégica, tecnologia e informação, é possível transformar a reforma em uma oportunidade — e não em uma ameaça.
Por isso, mantenha-se atualizado, invista em capacitação e prepare seus clientes para um novo capítulo da tributação no Brasil.
Veja também: Planejamento tributário | Limite do faturamento simples nacional