A Reforma Tributária já exige decisões antes de 2033. Empresas precisam avaliar impactos sobre margem, contratos, fluxo de caixa, sistemas e qualidade dos dados para atravessar a transição com mais previsibilidade. O caminho começa por mapear operações, simular cenários e testar processos ainda em 2026.
Hoje é um dia muito especial, pois esta é a minha primeira coluna aqui na Jettax. Agradeço imensamente a oportunidade de colaborar com a comunidade de contabilistas e empresários por meio da divulgação de conhecimento.
Quero aproveitar este espaço para aproximar os temas tributários das decisões que empresas e escritórios contábeis precisam tomar todos os dias, compartilhando reflexões e orientações que ajudem a reduzir riscos, organizar a rotina e compreender os efeitos dos impostos sobre os negócios.
Nesta estreia, começo por um assunto que já ocupa a agenda de empresários e profissionais da contabilidade: a Reforma Tributária sobre o consumo.
Diante de tantas siglas, normas e mudanças operacionais, é compreensível a dificuldade de identificar prioridades.
Para avançar precisamos traduzir as discussões em perguntas concretas: o preço continuará adequado? O caixa suportará as mudanças? Os sistemas e as pessoas estão preparados?
O que você vai ler neste artigo:
- Calendário exige decisões antes de 2033
- Margem depende de mais do que a alíquota
- Compras e contratos precisam participar da análise
- Fluxo de caixa também pode mudar
- Qualidade dos dados determina a qualidade da rotina
- Erros que dificultam a preparação
- Plano possível para os próximos 100 dias
Calendário exige decisões antes de 2033
A CBS, de competência federal, substituirá o PIS e a Cofins já em janeiro de 2027. Já a substituição do ICMS e ISS pelo IBS, de competência compartilhada entre estados e municípios, ocorrerá gradualmente com conclusão em 2033.
Durante a transição as empresas conviverão literalmente com tributos e procedimentos dos dois modelos. Certamente um grande desafio!
Esse calendário precisa entrar no planejamento de cada negócio. Um contrato negociado hoje pode continuar vigente quando a tributação mudar, enquanto a adaptação do faturamento depende de providências anteriores à emissão da primeira nota sob as novas regras.
A proximidade de 2027 torna necessário definir responsáveis, prioridades e prazos ainda em 2026.
Margem depende de mais do que a alíquota
A pergunta sobre pagar mais ou menos tributos merece uma resposta construída com os números reais da empresa. Comparar a tributação atual com uma alíquota estimada de CBS e IBS, isoladamente, pode distorcer a análise.
É preciso considerar os créditos aproveitáveis nas aquisições, o tratamento aplicável à atividade e as condições comerciais.
Duas empresas com faturamento semelhante podem apresentar resultados substancialmente diferentes porque compram de fornecedores distintos, têm estruturas de custos próprias e atendem públicos com capacidades diferentes de absorver reajustes.
Por isso, a simulação deve partir das operações efetivas e identificar como cada cenário altera a margem.
Para começar, selecione os produtos ou serviços mais relevantes e compare receita, custos, tributos e créditos no modelo atual e no novo. Registre as premissas utilizadas, especialmente quando houver estimativas.
Uma projeção que pode ser atualizada é mais útil do que um número aparentemente preciso cuja origem ninguém consegue explicar.
Compras e contratos precisam participar da análise
A possibilidade de aproveitamento de créditos deve integrar a avaliação dos fornecedores. Isso não significa decidir uma compra exclusivamente pelo regime tributário de quem vende.
- Preço, qualidade, prazo de entrega e segurança do fornecimento continuam relevantes, mas o custo após os créditos precisa fazer parte da comparação.
- Indo para os contratos, revise como estão definidos o preço e os tributos, quais são as condições de reajuste e se existe mecanismo de revisão diante de alterações tributárias.
- Identifique primeiro os contratos de maior valor e duração. Discutir esses pontos antecipadamente permite negociar com informação, sem depender de uma solução às pressas quando a margem já estiver pressionada.
Fluxo de caixa também pode mudar
O split payment, mecanismo de separação e recolhimento do tributo na liquidação financeira da operação, merece acompanhamento. Sua implantação depende das etapas e regras aplicáveis e não deve ser tratada como uma retenção universal e imediata sobre todas as vendas.
- Nas operações alcançadas, a separação do imposto pode alterar o valor disponível no recebimento.
Por isso, a empresa precisa simular o efeito sobre o capital de giro, considerando os prazos médios de recebimentos (clientes) e pagamentos (fornecedores), aproveitamento de créditos e eventuais ressarcimentos.
- Manter a margem contábil não garante que o dinheiro estará disponível no mesmo momento. Cash is king!
Qualidade dos dados determina a qualidade da rotina
A adaptação dos sistemas precisa caminhar junto com a revisão de cadastros e procedimentos. Descrições genéricas, classificações incorretas e informações incompletas sobre operações podem comprometer o cálculo e a emissão dos documentos fiscais.
Automatizar uma rotina sem corrigir sua base pode apenas multiplicar inconsistências.
Empresas e escritórios devem combinar quem fornece cada informação, quem valida seu tratamento e quem corrige divergências.
Também precisam acompanhar os leiautes e prazos oficiais aplicáveis aos documentos que utilizam.
Nos testes, convém reproduzir situações reais, incluindo cancelamentos, devoluções e ajustes, para verificar a integração entre faturamento, financeiro e escrituração.
Erros que dificultam a preparação
- Um erro recorrente é concentrar toda a responsabilidade no contador, embora boa parte das informações e decisões dependa de compras, comercial, financeiro e tecnologia.
- Outro é acreditar que uma atualização do sistema resolverá questões de cadastro, interpretação e processo que ainda não foram discutidas.
- Também é arriscado aplicar uma conclusão geral a toda a carteira do escritório. Clientes de atividades e perfis semelhantes podem ter exposições diferentes.
- Organizar a carteira por tipo de operação, regime tributário e dificuldade de adaptação ajuda a direcionar o atendimento, evitando gastar o mesmo esforço onde os riscos são muito distintos.
Plano possível para os próximos 100 dias
Janeiro de 2027 é logo bate à porta, porém ainda é possível se preparar. Minha recomendação é começar com um plano enxuto:
- Mapear as operações relevantes; revisar os cadastros que as sustentam;
- Simular os efeitos sobre margem e caixa; selecionar os contratos prioritários;
- E testar o fluxo dos documentos fiscais.
Cada atividade deve ter um responsável, uma data e um resultado verificável, como um cadastro validado ou uma simulação revisada.
Uma reunião periódica entre empresa e escritório pode acompanhar pendências e registrar decisões. O objetivo é construir previsibilidade sem paralisar a operação.
A contribuição do profissional contábil ganha força quando o conhecimento técnico ajuda o empresário a entender suas alternativas e escolher com antecedência.
É essa aproximação entre tributação e gestão que pretendo desenvolver nesta coluna.
Perguntas frequentes
Quando a Reforma Tributária começa a impactar as empresas?
A transição já exige preparação em 2026. A CBS substituirá PIS e Cofins a partir de 2027, enquanto a substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS será concluída em 2033.
A Reforma Tributária pode afetar a margem de lucro da empresa?
Sim. O impacto não depende apenas das alíquotas, mas também dos créditos aproveitáveis, estrutura de custos, fornecedores, atividade e capacidade de repassar alterações de preço.
O que as empresas devem revisar antes da transição?
É importante mapear operações, revisar cadastros, simular impactos sobre margem e caixa, analisar contratos e fornecedores e testar os processos de emissão e escrituração dos documentos fiscais.
Como o split payment pode afetar o fluxo de caixa?
Nas operações alcançadas pelo mecanismo, a separação do tributo no momento da liquidação financeira pode alterar o valor disponível no recebimento. Por isso, é importante simular os efeitos sobre capital de giro e prazos de recebimento e pagamento.

